Impressionante quando as coisas mais inesperadas acontecem e nos fazem ver a vida e as situações de ângulos diferentes, veja só esse caso:
Domingo, 18 de janeiro de 2009, as 19h36, voltando de moto da zona leste de Curitiba sentido minha casa (extremo oeste), empolgado e com o tempo relativamente curto, pois ainda necessitava arrumar as malas para o Campus Party pra qual partiria a meia-noite do mesmo dia com o Luc e Slonick. Mesmo assim, a empolgação não interferia de forma alguma na velocidade ou trajeto adotado. Sempre faço o mesmo caminho na mesma velocidade (média), porém naquele dia uma surpresa desagradável me esperava logo à frente, próximo a minha casa.
No fim da estrada velha do Barigui, na rua Eduardo Sprada, em frente a Igreja do bairro Campo Comprido, após a lombada, aproveitei a reduzida de velocidade para ultrapassar um Gol que seguia desde o inicio da subida. Sim, é uma subida de curvas bem acentuadas e a estrada é estreita e inapropriada para ultrapassagens, somente no trecho onde me encontrava pode-se ultrapassar seguramente. Deixei o carro um pouco para trás e desacelerei, pois o sinal estava vermelho e apesar de estar a mais de 50 metros do cruzamento, o ideal é segurar o veiculo numa distancia bem anterior ao limite, pois além de não forçar o veiculo, ainda há a possibilidade de o sinal ficar verde, permitindo a retomada de maneira facilitada. E foi justamente isso que aconteceu.
Ao esverdear o sinal retomei a aceleração para chegar a velocidade de 60km/h (limite da via naquele trecho), por uma questão pessoal e apesar de nenhuma regra de transito obrigar ou sugerir, adquiri o habito de atravessar cruzamentos desacelerando o veiculo (seja carro ou moto) para manter um maior controle e segurança. Pois, logo abaixo do sinal há o cruzamento em T das ruas Eduardo Sprada e João Falarz (bem conhecidas e movimentadas na região), em tal cruzamento é permitida conversão para ambos os sentidos. Porém, a preferencial mesmo com o sinal aberto (verde) é para quem se mantém na Eduarda Sprada, que era o meu caso. Aproveitando-me desta vantagem ia passar socegadamente pelo cruzamento quando numa visão de câmera lenta observo um dos carros da fila de conversão invadindo a pista, meu coração deve ter parado na boca.
Como reação imediata surtiu a frenagem, pisando levemente no freio traseiro e apertando ferozmente no freio dianteiro (sem perigo de capotar, pois o sistema de freio da moto – Honda Twister 250cc – é a disco) em questão de 5 metros reduzi quase metade da velocidade (estando a 30km/h em média), como outra reação ao ver o perigo se aproximando foi desviar dentro na mesma mão da pista a qual me encontrava, mesmo sendo um movimento rápido ainda foi pouco para me salvar.
Em uma situação como esta que a colisão torna-se inevitável o único recurso é enrijecer o corpo e esperar pela melhor situação de aterrizagem. Como num piscar de olhos, os 5 metros entre o carro e eu sumiram e senti, de maneira bastante pavorosa e violenta, meu joelho esquerdo literalmente destruindo a lanterna esquerda do veiculo seguida de uma bela pancada de tornozelo no parachoque do “oponente”. Com a violência da batida, mais uma vez o instinto entra em ação olhando para a perna esquerda para tentar calcular os estragos. Para minha surpresa, encontro a perna indo ao ar acompanhada de meu tronco que começara a torcer, pensando comigo mesmo “me fudi”. Larguei o guidão pra ser lançado num giro de 360 graus, aterrizando violentamente no asfalto a uma distancia aproximada de 30 cm do meio fio.
Confesso que a sensação de pânico não é das melhores, não vi minha vida passar diante dos olhos, mas com certeza quase borrei as calças, no entanto era só o começo da agonia. Me encontrando agora face a face com o meio fio da esquina, abro o olho e permaneço imóvel sem sentir nada, apenas uma forte formigação na perna esquerda. Em 10 segundos me permiti experimentar os sentidos e movimentos corporais, primeiro as mãos sujas pelo asfalto, o movimento dos braços ( que me permitiram soltar o capacete), sem identificar nenhuma dor ou moleza no pescoço ou cabeça tirei o capacete que começava a me sufocar e soltei a alça da pequena mochila que tinha nas costas, pois bem é hora de verificar como estão as pernas.
Fiquei feliz em verificar que a perna direita estava intacta, nem um arranhão, batida ou sinal de dor, no entanto ao retirá-la de cima da perna esquerda (ambas estavam praticamente trançadas) é que levo o maior susto. Observo que a perna esquerda esta metade em cima do meio fio e metade no asfalto, neste momento o formigamento passa a forte latejação seguida de uma dor aguda, algumas pessoas que estão em volta me pedem calma e para não me mexer pois o SIATE já esta a caminho. No entanto, um homem de meia idade me estende um celular e pede para eu conversar com a atendente que me faz algumas perguntas relacionadas a peso, sexo e idade, curiosamente ela me pergunta:
_ A vitima esta consciente?
Como que por um impulso me passou a hipótese de ser sarcástico, porém a perna esquerda não me deixava esquecer dela e foi melhor dizer logo:
_ Minha filha a vitima sou eu e estou com a perna esculhambada no meio fio, rápido, por favor.
A atendente tenta me acalmar dizendo que o atendimento de emergência é rápido, etc. Porem a dor não teve muita calma e foi logo aumentando.
Impressionei-me com a solidariedade e prestatividade das pessoas ao redor me olhando com pesar, o mesmo homem de meia idade que me passara o celular, para falar com a atendente do SIATE, pergunta se eu quero avisar alguém, ao tentar com o meu celular e verifico que ele está sem bateria, logo ele me estende a mão e diz para usar a vontade pois é de conta e ilimitado. Avisei pessoas chaves (como o @virus94 meu quase irmão e vizinho e o @lenteaberta que iriamos dali algumas horas embarcar rumo a São Paulo para a Campus Party), eis que nesse momento surge uma viatura da ROTAM (PM), muito atenciosos e prestativos, todos os meus anteriores encontros com a ROTAm não tinham sido tão amáveis quanto esse. Logo, ao longe, escuto sirenes e a ROTAM sai dando lugar ao SIATE. Dois rapazes singelos e sorridentes descem da ambulância e chega a hora da verdade.
Rápido como devem ser um dos socorristas vem perguntar algumas informações básicas sobre mim e meu estado, e o outro se direciona a perna sobre o meio fio. Com cuidado, o mesmo desce a perna e posiciona-a, o mais reto possível, sobre o asfalto plano (tudo isso seguidos por alguns Aiiiiii da minha parte), com uma tesoura começou rapidamente a cortar minha calça (nova, segunda vez que a usava) para expor a perna e poder de fato ver o que aconteceu. Quando chegou a altura do joelho (que eu sentia muita dor e sentia o sangue escorrendo) cortou com mais cuidado e fez uma cara não muito agradável, me fez lembrar novamente da batida e cheguei a pensar em fratura exposta, pois alem da dor, podia senti o sangue escorrendo por dentro da calça e não sentia a panturrilha. Quando o socorrista pegava nesta região eu a sentia amortecida, sem mais delongas me colocaram na maca, acompanhado da dor. O caminho ao hospital e os acontecimentos seguintes, ficam para uma outra narrativa.